| ENTREVISTA ao site sportmotores.com |
2004 - Hugo Godinho é talvez um dos pilotos maior talento da nossa praça, juntando a esta vertente o seu gosto pela mecânica, o que o motivou a fundar a HG Racing. Ao também assumir o papel de preparador, Hugo Godinho colocou-se numa posição privilegiada, que lhe permite observar o panorama nacional da velocidade de uma forma mais profunda e sob prismas diferentes. A frontalidade é, reconhecidamente, uma das suas características, nunca se escusando a dar a sua opinião, mesmo que possa afrontar algumas personalidades bem instaladas nas entidades que governam os destinos do automobilismo lusitano.
É portanto com facilidade, apesar de com muita mágoa, que o piloto conimbricence verifica o estado actual da Velocidade Nacional, que parece caminhar calmamente para uma posição, onde o desconhecimento de uma grande parte dos portugueses está assegurado.
O automobilismo nacional está no geral muito mau, como qualquer pessoa pode verificar. O Trofeu Clio, por exemplo, teve na última prova nove concorrentes, é verdade que três ou quatro pilotos não puderam participar devido a problemas pessoais, mas há três anos éramos trinta e quatro
aponta o homem forte da HG Racing, que vê com alguma tristeza o abandono a que foi votada a competição por parte da Renault, que, segundo ele
foi um trofeu que sempre teve um sucesso assinalável e com um nível de pilotagem extremamente elevado
Para o actual estado da Velocidade Nacional contribuem diversas causas, mas Hugo Godinho não tem qualquer pejo em apontar os trofeus, que o próprio baptiza de ¿paga senta e anda¿, como um dos responsáveis, dado que os pilotos têm a sua vida muito facilitada, quer na forma como encaram as provas, quer no modo como obtêm as suas licenças, o que provoca uma redução substancial na qualidade de pilotagem a que todos podemos assistir nas nossas pistas.
Penso que os ¿trofeus paga, senta e anda¿ colocaram em dificuldades as restantes competições. Com estes trofeus qualquer pessoa se pode tornar piloto, até porque passam licenças indiscriminadamente. Antigamente tinha-se que disputar os Iniciados, no fundo era necessário cumprir um trajecto para atingir ao Consagrados, hoje, de um dia para o outro, adquire-se uma licença desportiva.
Além do mais, segundo Godinho, este género de competições rouba à competição automóvel uma componente que considera fundamental.
Na realidade este tipo de trofeus não são do meu agrado, dado que se perde a componente técnica, que na minha opinião é muito importante, como prova o facto de ter fundado a minha equipa. É verdade que estive para entrar num trofeu desse género, mas julgo que iria ter uma aproximação diferente, dado que cada carro iria ter um responsável que acompanharia o piloto ao longo de toda a temporadaconcluiu o piloto que venceu a primeira corrida do Trofeu Clio deste ano. Por outro lado, é com estranheza que Hugo Godinho vê a dispersão de corridas de velocidade, levando a que os espectadores se desinteressem, devido ao exagerado números de fins de semana com provas, e provocando o empobrecimento dos paddocks nacionais.
É-me incompreensível a razão que leva a que se faça num fim de semana uma corrida do Trofeu Clio e Campeonato Nacional de Clássicos e noutro provas do Campeonato Nacional de Velocidade e mais alguns trofeus. Se existe a possibilidade de realizar tudo num fim de semana, porque motivo não se adopta esse caminho, que permitiria compor o paddock e realizar corridas interessantes. É preferível iniciar o programa à quinta-feira, à semelhança do que acontece quando há competições europeias, e haver um fim de semana de corridas por mês. Quem anda no automobilismo tem que se sujeitar e quem encara isto como um hobby, tem que saber que necessita tirar aqueles dias.
Longe vão os tempos em que a caravana do Nacional de Velocidade oferecia uma atmosfera de festa ao locais que visitava, sobretudo aos traçado citadinos, que na época passada viram o seu ultimo representante receber a derradeira machadada, com o desaparecimento definitivo do circuito de Vila do Conde, algo que deixou o piloto oriundo da ¿cidade do conhecimento¿ entristecido e profundamente revoltado.
Acabou o circuito de Vila do Conde, segundo consta devido ao programa Polis, mas a verdade é que ainda não foi iniciado, portanto pelo menos este ano a corrida ainda podia ser feita.
Ainda no que diz respeito aos circuitos, Hugo Godinho não compreende o motivo que leva os responsáveis do Autodromo do Estoril cobrar quantias elevadíssimas quando os piloto pretendem lá testar, apontando as diferenças que sente para os circuito estrangeiros.
Nunca consegui treinar no Estoril, é incrível, mas a verdade é que me cobram exactamente o mesmo que a uma equipa de Fórmula 1, o que acho profundamente errado, porque em Inglaterra ou em França não é bem assim. Há dois anos paguei vinte e cinco euros para treinar o dia inteiro em Nogaro, rodando juntamente com carros do dia à dia. E não me venham dizer que esta situação é impensável, porque não é. Havia respeito por parte de quem estava a divertir-se para com quem andava a trabalhar, porque eles estavam habituados a esse tipo de situações.
Os organizadores também não passaram incólumes na apreciação que Hugo Godinho realizou à Velocidade Nacional, dando um exemplo gritante de falta de profissionalismo de um clube da nossa praça, algo que segundo ele não pode acontecer.
Sei que os organizadores fazem o melhor que lhes é possível, admito até que gostam mais das corrida do que os próprios pilotos, mas quando se propõem a realizar provas têm que as fazer bem. Num dos últimos fins de semana do Estoril passou-se uma situação que não cabe na cabeça de ninguém. Havia um compromisso televisivo para a transmissão de uma corrida internacional e mostraram a bandeira vermelha uma volta antes do final de uma prova para cumprir horários. Isto não pode acontecer, os pilotos pagaram a inscrição como todos os outros, portanto eles tinham o direito de realizar aquela volta. Na última volta pode-se decidir muita coisa, há pilotos, inclusivamente isso já me aconteceu, que esperam pela última volta para decidir a corrida.
Com todos estes factores a emperrarem a engrenagem da Velocidade Nacional é com naturalidade que se concluiu que o retorno, sempre tão importante para que as marcas e as empresas invistam, é ainda uma miragem, o que coloca nos pilotos demasiados encargos, uma opinião assumida por Hugo Godinho.
Além disso, o conimbricence admite que deveria haver uma redução na preparação dos carros do Campeonato Nacional de Velocidade, ou pelos menos numa categoria, o que significaria um regresso a suma solução parecida aos antigos Grupo N e Grupo A, dado que segundo Hugo Godinho preparar um carro de acordo com o actual regulamento fica muito dispendioso.
Penso que devíamos regressar à situação em que tínhamos o Grupo A e o Grupo N. Estes últimos destinar-se-iam aos pilotos com poucos recursos económicos. Na prática era um carro de série que levava os sistemas de segurança ¿ roll bar , bacquet, extintores, etc. O regulamento actual fica entre o Grupo N e o Grupo A e os carros já têm algumas alterações dispendiosas ¿ electrónicas, que penso que deveriam ser iguais, amortecedores, etc. Além disso, julgo que para alimentar o campeonato que temos, as marca deveriam estar por detrás da sua realização, pois é impensável, e impossível, sobretudo com a nossa conjectura económica, serem apenas os pilotos a apostar. Eu cheguei a ponderar a possibilidade de preparar um carro para o CNV, mas realmente ficava muito caro colocá-lo nas corridas.
Além dos aspectos técnicos, Godinho sugere outras modificações, fáceis de colocar em prática, e que poderiam dar um colorido diferente às corridas nacionais.
Julgo que se deveria promover uma aproximação entre o público e os pilotos, por exemplo permitindo que os adeptos entrem no paddock, pois existe lá muito espaço para todos. Assim como poderíamos, se houvesse uma vontade comum, fazer um excelente campeonato com os Fórmula Ford que temos parados no nosso país, e falo apenas de modelos dos anos noventa. Com actual estado da Velocidade Nacional é com naturalidade que Hugo Godinho se sente.
tendo decidido participar no Trofeu Clio muito perto do seu início. Depois de um piloto ter falhado com a sua palavra, decidi fazer o Trofeu Clio dois ou três dias antes da corrida, mas não estava nos meus planos e, para dizer a verdade, estou sem grande motivação, devido às fracas grelhas e à falta do convívio que era promovido pela Renault. Além disso, sinto que não vale a pena levarmos os patrocinadores às corrida, pois iriam deparar-se com um paddock paupérrimo.
Em face disso, e depois de gorada a possibilidade de realizar a corrida portuguesa do Campeonato Espanhol de GT¿s, o fundador da HG Racing pretende realizar algumas provas internacionais, de modo a readquirir a prazer pelas corridas que no fundo estão no sangue do português.
Gostaria de realizar uma prova do Trofeu Alfa Romeo 147 GTA ou então da Copa Leon, também porque desejo de voltar a sentir o ambiente de corridas que tem faltado em Portugal nos últimos anos
Contudo, o piloto de Coimbra está a trabalhar num projecto que poderá devolver-lhe a motivação, além de poder garantir a manutenção da HG Racing num momento em que crise assola os preparadores portugueses.
Fundei a minha equipa sobretudo como um hobby, mas tem que ter lucro para sobreviver. Tendo esse facto em mente estou a estudar a possibilidade de criar um ¿trofeu paga, senta e anda¿ para a próxima temporada, mas só se tiver o apoio da marca, em caso contrário não vou entrar em loucuras. Contudo, penso que tudo está bem encaminhado.
Com este trofeu Hugo Godinho quer criar uma nova referência no Nacional de Velocidade, garantindo que o carro, que servirá de base a este projecto, será o mais rápido nas pistas portuguesas.
Vai ser um carro muito competitivo com mais de duzentos cavalos, que, naturalmente, será o carro mais rápido da velocidade nacional. Se é para criar alguma coisa é para ser a referência, e se é para pedir o apoio de uma marca é para ser a uma de prestígio.
Como é do domínio público Hugo Godinho e a HG Racing já estiveram envolvidos num projecto semelhante, mas, depois de diversos encontros e desencontros, o conimbricence acabou por ficar arredado da Siemens Mobile Cup vulgo Trofeu Porsche ¿ quando toda a sua concepção foi reformulada.
O Dr. Pedro Paiva Raposo(n.d.r.: responsável pela Actionplan) teve a ideia de realizar o Trofeu Porsche¿, e é preciso dar-lhe valor por isso, e contactou-me no sentido de a HG Racing preparar os carros, entrámos em negociações, assinámos contrato e eu construi as instalações. Posteriormente, ligou-me o Dr. Nuno Costa (n.d.r.: responsável pela Porsche em Portugal), afirmando sistematicamente que os carros chegavam no dia seguinte, depois amanhã e por aí fora. Para dizer a verdade, no início não acreditei neste projecto, porque sei o que custa colocar pé algo de semelhante com poucos recursos financeiros. Mas um dia falei com o Dr. Nuno Costa e ele garantiu-me que os carros estavam Lisboa, onde eu os fui ver, assegurando-me de seguida que estariam nas instalações da HG Racing dois dias depois, e andámos assim durante duas semanas.
Mais tarde, o Dr. Nuno Costa voltou a ligar-me e colocou a possibilidade de eu ficar com o trofeu, o que implicava a saída do Dr. Paiva Raposo do projecto, ao que eu acedi, tendo que, no entanto, tomar conhecimento das condições que me eram oferecidas. No dia seguinte tive uma reunião com o Dr. Nuno Costa e com mais algumas pessoas que estavam no projecto e foi-me proposto comprar os carros, o que não aceitei, até porque não tinha capacidade financeira para realizar um investimento dessa dimensão.
Posteriormente recebi a informação de que dois indivíduos espanhóis que estiveram nessa reunião comprariam os carros, ficando eu encarregue da sua preparação e que o Dr. Pedro Paiva Raposo iria abandonar o projecto. Aguardei, até que soube pelos jornais que o Sr. António Teixeira, da Enduransport, tinha comprado os carros e que iria assumir o projecto.
Pedi uma explicação ao Dr. Nuno Costa, no fundo para formalizar este desfecho, até porque criei alguma amizade com ele, devido ao relacionamento que mantivemos nos últimos meses, e ele disse-me que estava a receber algumas pressões da Porsche Ibérica, dado que tinha quinze carros a seu cargo e tinha que os vender. O Sr. António Teixeira propôs-se a comprar os carros e ele vendeu-os. O que significa que a Enduransport irá organizar o Trofeu, a quem desejo que tudo corra bem. No fundo, e no que me diz respeito, as coisas correram mal, porque não havia dinheiro para desbloquear os carros, acabando eu por ter algum prejuízo económico.
concluiu Hugo Godinho.
No fundo o piloto de Coimbra está desiludido com a Velocidade Nacional, algo que é comum a qualquer adepto apaixonado do automobilismo, que verifica a cada instante que a corridas em Portugal se dirigem rapidamente para um beco sem saída. Será que não é a altura dos doutos senhores da FPAK tomarem o pulso do Automobilismo Nacional e ouvirem os pilotos, os preparadores, os organizadores, os media e os cada vez menos adeptos, para que possamos todos juntos inverter uma tendência que aparenta ser terminal.
Não está, ainda, definido em que moldes decorrerá o Trofeu, se é com corridas de sprint ou de endurance, se são dois ou três pilotos por prova. A verdade é que eu apresentei um projecto para quinze carros e garanto o seu sucesso, se for com automóvel que quero e se for preparado como pretendo. Penso que se estas condições estiverem reunidas vão-me faltar carros para os pilotos.